Pessoas com dislexia da incapacidade de leitura podem ter diferenças cerebrais surpreendentemente amplas, sugere um novo estudo.

Usando imagens cerebrais especializadas, os cientistas descobriram que adultos e crianças com dislexia mostraram menos capacidade de "adaptar-se" às ​​informações sensoriais em comparação com pessoas sem o distúrbio.

E as diferenças foram vistas não apenas na resposta do cérebro às palavras escritas, o que seria esperado. Pessoas com dislexia também mostraram menos adaptabilidade em resposta a imagens de rostos e objetos.


Isso sugere que eles têm "déficits" mais gerais em todo o cérebro, disse o principal autor do estudo, Tyler Perrachione. Ele é professor assistente de ciências da fala, audição e linguagem na Universidade de Boston.

Os resultados, publicados na edição de 21 de dezembro da revista Neuron, oferecem pistas sobre as causas da dislexia.

Outros estudos descobriram que pessoas com dislexia mostram diferenças na estrutura e função do cérebro.


"Mas não ficou claro se essas diferenças são causa ou consequência da dislexia", explicou Perrachione.

A questão do ovo e da galinha é complicada, porque anos de leitura ou anos de deficiência na leitura afetam o desenvolvimento do cérebro.

Perrachione disse que sua equipe acha que descobriu uma causa de dislexia - em parte porque a adaptação reduzida foi vista em crianças pequenas e não apenas em adultos.


Um pesquisador que não estava envolvido no estudo chamou de "inovador".

"Francamente, os pesquisadores têm lutado para entender as bases cerebrais da dislexia", disse Guinevere Eden, diretor do Centro para o Estudo da Aprendizagem no Centro Médico da Universidade de Georgetown, em Washington, DC.

Os cientistas sabem que a estrutura e a função cerebral parecem diferentes em pessoas com dislexia, disse Eden, mas não sabem o porquê.

"Este estudo dá um passo importante nessa direção", disse ela. "Ele atinge as verdadeiras características das propriedades dos neurônios [células] nessas regiões do cérebro, não apenas a aparência externa".

Pessoas com dislexia têm problemas consistentes com as habilidades de linguagem, especialmente a leitura.

De acordo com a Associação Internacional da Dislexia, de 15% a 20% da população tem sintomas de dislexia - incluindo leitura "lenta", pouca habilidade de ortografia e escrita e problemas para decifrar palavras semelhantes entre si.

O novo estudo teve como objetivo verificar se a "adaptação neural" pode desempenhar um papel.

Adaptação é como o cérebro melhora sua eficiência. Perrachione ofereceu um exemplo: quando você fala com alguém pela primeira vez, o cérebro precisa de um pouco de tempo para se acostumar com a voz dessa pessoa, falando ritmos e pronúncia de palavras, por exemplo.

Mas então o cérebro se adapta e para de trabalhar tanto para processar o discurso da outra pessoa.

Em pessoas com dislexia, no entanto, essa adaptação parece ser prejudicada. "Seus cérebros estão trabalhando mais para processar essas informações sensoriais", disse Perrachione.

As novas descobertas são baseadas em exames funcionais de ressonância magnética de adultos e crianças com e sem dislexia. As varreduras foram usadas para capturar a atividade cerebral dos participantes do estudo, enquanto realizavam uma série de tarefas.

Em um experimento, os participantes ouviram uma série de palavras, lidas por um único orador ou por vários diferentes. No geral, os pesquisadores descobriram que pessoas sem dislexia se adaptavam à voz única, mas não a vários falantes.

Por outro lado, pessoas com dislexia mostraram muito menos adaptação em suas atividades cerebrais, mesmo quando ouviam um único falante. O mesmo padrão foi observado quando os participantes do estudo visualizaram palavras escritas.

Mas as diferenças foram além das palavras: pessoas com dislexia mostraram menos adaptação cerebral em resposta a imagens de rostos e objetos.

Isso é "surpreendente", disse Eden, já que o distúrbio não envolve problemas aparentes com o reconhecimento de rostos ou objetos.

Perrachione especulou uma razão para as descobertas: a adaptação cerebral reduzida só pode "aparecer" quando se trata de leitura, porque a leitura é uma habilidade tão complexa.

O cérebro não possui área dedicada à "leitura". "A leitura é uma ferramenta ou tecnologia que inventamos", apontou Perrachione.

Aprender a usar essa tecnologia exige uma orquestração complexa de diferentes "domínios" cerebrais, explicou.

E, no entanto, como todos devem ler, é provável que a maioria das pessoas não perceba que conquista é essa, disse Perrachione.

Eden concordou. "Aprender a ler é uma façanha surpreendente e que muitas vezes tomamos como garantida", disse ela.

O novo entendimento da dislexia levará a novas terapias? Não está claro, disseram Eden e Perrachione.

No momento, a dislexia é gerenciada com instruções de leitura especializadas, iniciando o mais cedo possível. Isso não vai mudar, disse Eden.

Mas se os cientistas entenderem melhor o que está acontecendo no cérebro, disse Perrachione, talvez seja possível refinar as terapias de leitura usadas para a dislexia.


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